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Curso explica criação de estereótipos sobre o Oriente

11 de junho de 2016

São Paulo – O conceito de oriental como algo diferente, distante e exótico está arraigado na cultural ocidental há séculos. Como se deu a formação desse conceito e como a identidade do Ocidente se formou a partir dessa contraposição é o tema do curso O Ocidente e seus Avessos, que acontece nos dias 05, 12, 19 e 26 de julho, em São Paulo. As aulas são promovidas pelo Instituto da Cultura Árabe (Icarabe).

“É um trabalho sobre estereótipos. O estereótipo é uma caricatura que tem um poder retórico gigantesco. Ele se enraíza no inconsciente”, diz Plínio Freire Gomes, mestre em História pela Universidade de São Paulo (USP), que irá ministrar as aulas. Segundo ele, a imagem de sociedade civilizada criada no Ocidente foi formada com a contraposição ao conceito de exotismo e barbarismo com que o Oriente sempre foi visto. “A contraposição se dá em torno do antagonismo, do ‘eu contra eles’”, aponta Freire.

O conceito do Oriente como um lugar de bárbaros, explica Freire, nasceu na Grécia Antiga, onde os persas eram assim chamados por não falarem o idioma grego. Posteriormente, conta, o Oriente passa a ser considerado ameaçador não pela diferença na língua, mas pela religião, o que deu origem às Cruzadas.

De acordo com o professor, a visão de exotismo que hoje existe sobre os árabes nos países ocidentais é bem anterior aos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, que acabaram por reforçar o estereótipo de árabes como um povo que oferece algum tipo de ameaça.

“Isso começou depois da Primeira Guerra Mundial, quando o Império Otomano se dissolveu e os países árabes passaram a ser colônias da Inglaterra e da França. Foi um fenômeno de recolonização não declarado que negava a soberania daqueles países e eles tiveram que lutar”, destaca Gomes. Segundo ele, essa necessidade de brigar por sua soberania gerou um forte nacionalismo que acabou opondo os países da região às nações ocidentais.

Entre os principais fatos históricos que simbolizam esta luta, diz Gomes, está a nacionalização do Canal de Suez, em 1956, pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser. Na época, o canal, única ligação entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho e principal escoadouro de petróleo dos países árabes para a Europa, estava sob domínio britânico. Com isso, franceses e ingleses se uniram a Israel para atacar militarmente o país árabe.

No Irã, país não árabe do Oriente Médio, a decisão do então presidente Mohammad Mossadegh, em 1953, de nacionalizar o petróleo do país, até então também sob controle da Grã-Bretanha, acabou por levar a uma interferência do país europeu, com o apoio dos Estados Unidos, na política interna iraniana. “São os orientais que saem do controle”, aponta Gomes.

O professor lembra que os ataques terroristas são um fato, mas que o conceito de um Oriente estreitamente ligado ao terrorismo mostra o aprofundamento destes estereótipos de orientais como representação de uma ameaça. “Os estereótipos não morrem nunca. Eles ficam enraizados. Por trás do terrorista se passa a ideia de um Oriente infiel e exuberante”, afirma. Para Gomes, a única maneira de lutar contra os estereótipos é o conhecimento da outra cultura.

Gomes aponta ainda que muitos terroristas acabam se aproveitando dessa imagem para fazer propaganda de suas ações. “Isso acaba se transformando em um jogo de espelhos. Os terroristas conhecem o nosso imaginário, de que eles são ameaçadores e bárbaros, e se comportam exatamente assim”, destaca o professor, em referência a ataques que tiveram grande repercussão na mídia, como o que foi feito ao jornal francês Charlie Hebdo, em 2015.

Entre as táticas usadas por terroristas para propagandear sua ideologia e atrair novos membros, Gomes menciona ainda os vídeos feitos pelo grupo radical Estado Islâmico. “Suas técnicas de filmagem, de posicionamento das câmeras, a exibição de soldados perfilados são uma réplica dos vídeos de alistamento dos mariners [dos Estados Unidos]”, diz.

Serviço
Curso 'O Ocidente e seus Avessos'
Dias 05, 12, 19 e 26 de julho, das 19 às 21h30
Local: Livraria Martins Fontes
Av. Paulista, 509 – Bela Vista, São Paulo
As inscrições estão abertas e podem ser feitas pelo e-mail secretaria@icarabe.org
Valor: R$ 200, para associados do Icarabe, e R$ 250, para o público em geral

Programação das aulas:
1. O Oriente bárbaro e infiel
Dos bárbaros no mundo greco-romano às Cruzadas.
2. O Oriente exuberante
A expansão europeia e as novas categorias do exotismo oriental - o Império Otomano, a Índia, a China. O Orientalismo como arte e ideologia do homem branco.
3. O Oriente revolucionário
A Guerra Fria, a luta pela independência e a subversão da ordem mundial.
4. O Oriente fanático
A “guerra santa” e a “guerra ao terror”. Do 11 de setembro ao ataque contra o “Charlie Hebdo”.